Rodrigo Caio é um jogador de condomínio, disse uma vez um dirigente do São Paulo Futebol Clube. Referia-se ao jogo simples e ao correto comportamento do, na época, volante promovido dos canteiros do clube. Ele nunca foi viril, nem quando atuou ou atua como zagueiro. É daqueles que antes mesmo de fazer uma falta já pede desculpas ao jogador que vai derrubar. Não bate forte. Prefere assoprar. Quando comete erros, se envergonha. Quando acerta, guarda as glórias no seu íntimo. Nunca deu uma entrevista polêmica, descontando aí a sua juventude. Nem arrumou confusões dentro e fora de campo. Seu perfil é de um bom moço. Em pouco mais de 125 jogos como jogador profissional desde 2011, foi expulso em menos de cinco partidas.

Diante desse perfil seria um absurdo Rodrigo Caio, aos 23 anos, não reconhecer que foi ele quem pisou no goleiro do seu time, Renan Ribeiro, e não Jô, atacante do Corinthians, no clássico das semifinais do Paulistão 2017, domingo, no Morumbi. Mas sua simplicidade corriqueira, normal acima de tudo, no lance virou o Brasil de ponta de cabeça. “Precisamos mais de Rodrigos Caios neste País”. Um exemplo de honestidade. Um tapa com luva de pelica nos jogadores que simulam faltas, cotoveladas no queixo, pequenos delitos transformados em assassinatos ou carnificinas dentro de campo.

Alguns mais exaltados disseram que o exemplo de Rodrigo Caio deveria ser imitado pelos políticos, assim teríamos menos corrupção no País. Disseram que Tite ficou tão impressionado que na próxima convocação da Seleção, em junho, o jogador do São Paulo vai ser chamado pela sua honestidade, honradez e, porque não, pelo bom futebol apresentado. Lembrando que seu time, o São Paulo, tem uma das piores defesas do Campeonato Paulista.

Nos programas dos canais a cabo desta segunda-feira, seu gesto dominou as discussões calorosas e ridículas ao mesmo tempo durante toda a segunda-feira, das 9h às 23h55. Debatedores quase saíram no braço, depois de cuspirem marimbondos uns nos outros. Bom comportamento, um jeito de mudar o mundo, um exemplo de bom moço, de compostura. Um moralismo sem fim. Não faltou quem quisesse entrevistar o Papa Francisco para ouvir a opinião do pontífice a respeito do gesto do zagueiro.

Rodrigo Caio passou a ser o que ele sempre foi dentro de campo, menos para os desavisados e desatentos que não conseguem analisar o desempenho de um jogador de futebol pelo seu comportamento e pela bola que joga.

Com o gesto do zagueiro, o cartão amarelo dado pelo árbitro a Jô foi anulado. Assim Jô deixa de ser punido com o terceiro cartão e está livre para jogar o clássico decisivo no Itaquerão quando será conhecido um dos finalistas do Campeonato Paulista. Rodrigo Caio, aos críticos, teria prejudicado seu time em benefício do adversário. Como se Jô fosse um Pelé, Ronaldo Fenômeno, imprescindível ao Corinthians na decisão da vaga à final. Nas redes sociais, milhares de torcedores do São Paulo reprovaram atitude do jogador.

Agora vamos ver o que disseram alguns de seus companheiros, adversários, dirigentes e comentaristas sobre o lance capital quando ele se acusou e inocentou Jô:

”Fantástico. O que ele fez é para poucos e tem que ser enaltecido, porque ele teve uma atitude de homem e de honestidade. Isso não tem dinheiro no mundo que pague. Está servindo de exemplo para crianças. Eu que tenho filho e sei o que seu gesto representa” – Jô, atacante do Corinthians e pivô do lance.

“Eu acho que é melhor a mãe deles (corintianos) chorando do que a minha. Prefiro a mãe dos meus adversários chorando do que a minha. A gente deveria respeitar a atitude dele, foi o que ele quis fazer na hora. Se foi certo ou não, a consciência está com ele, e temos que apoiar”– Maycon, zagueiro do São Paulo.

“Com a cabeça quente, eu não faria, não teria essa atitude dele, não. Acho louvável, bacana, corretíssimo e tem que servir de exemplo para todo mundo, inclusive para a sociedade de um modo geral, mas eu acho que não faria, não” – Edmundo, ex-jogador do Palmeiras e Vasco, comentarias da Fox Sport.

“O que o Rodrigo Caio falar está bem falado. Eu não sei direito o que aconteceu. Vi o Jô pressionando, mas acho que o Rodrigo pressionou o Renan. Foi um gentleman, vocês têm que parabenizar, uma grande atitude, é um menino bom” – Rogerio Ceni, técnico do São Paulo.

“Para mostrar aos que ainda não são profissionais. Obrigado, Rodrigo Caio” – Alejandro Dominguez, presidente da Confederação Sul-Americana de Futebol.

“A atitude de Rodrigo Caio é para se levar realmente como exemplo, que estamos precisando no futebol. Estamos vivendo muito da malandragem e isso tem prejudicado o espetáculo. Pênaltis que os jogadores simulam, por exemplo, e, infelizmente, não é tão fácil para o árbitro identificar. Se todo mundo ajudar, o espetáculo vai ser melhor. Trabalhamos para uma arbitragem melhor, mas acho que também precisamos trabalhar o outro lado, que é menos malandragem no futebol” – Marcos Marinho, presidente da Comissão de Arbitragem da CBF.

Com a palavra Rodrigo Caio, autor da maior polêmica do futebol brasileiro nos últimos anos:

“Não fiz nada demais, fiz só o que deveria fazer”, disse ao deixar o campo após a derrota do São Paulo por 2 a 0 para o Corinthians.

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