Bibiana Steinhaus vai ser a primeira árbitra a dirigir jogos na Primeira Divisão de um grande campeonato nacional na Europa (Foto: sueddeutsche.de)

Uma alemã de 38 anos que trabalha como policial em Hanover rompeu uma barreira no futebol europeu e vai apitar na Bundesliga na próxima temporada. Bibiana Steinhaus, que tem experiência em dirigir jogos masculinos na Segunda Divisão do país, será a primeira árbitra a trabalhar na Primeira Divisão em uma das cinco principais Ligas da Europa (Alemanha, Espanha, França, Inglaterra e Itália).

“É a realização de um sonho. Trabalhei muito duro para atingir esse objetivo, e quando fui avisada da promoção vivi uma montanha-russa de emoções”, disse Bibiana ao site da Federação Alemã de Futebol.

Ela tem um sólido currículo em jogos femininos (esteve em Mundiais, apitou a final da Olimpíada de 2012 e no dia 1º vai dirigir em Cardiff a decisão da Liga dos Campeões entre Lyon e PSG). Apitando partidas masculinas, em 2015 ouviu uma bobagem de um jogador que expulsou. Quando viu o cartão vermelho, o meia Kerem Demirbay disse que “jogo de homens não é lugar para mulheres”. A frase foi relatada na súmula e o jogador pegou cinco partidas de suspensão. Além disso, o Fortuna Dusseldorf (seu clube época, hoje ele está no Hoffenheim) o puniu mandando-o apitar um jogo de meninas.

“Sei que por ser a primeira mulher a apitar na Bundesliga vou ser muito observada pela imprensa e pelos torcedores, mas estou acostumada a esse tipo de pressão e confio no meu trabalho.”

Bibiana começou a apitar partidas amadoras quando tinha 17 anos. Ela é elogiada por sua condição física e por ser enérgica para controlar o  jogo. Seu namorado foi um árbitro de sucesso: o inglês Howard Webb, que apitou a final da Copa do Mundo de 2010 entre Espanha e Holanda.

TITE É CONTRA MULHER APITANDO JOGOS MASCULINOS

No Brasil, já faz quase 15 anos que uma mulher apitou uma partida da Primeira Divisão do Brasileirão (o quadro de árbitros da CBF conta hoje com 63 mulheres, das quais 49 são auxiliares e 14 trabalham como árbitras – nenhuma na Série A). A pioneira foi a paulista Silvia Regina de Oliveira, que no dia 29 de junho de 2003 trabalhou na partida entre Guarani e São Paulo no Brinco de Ouro (vitória são-paulina por 1 a 0) auxiliada por Aline Lambert e Ana Paula de Oliveira. O trio teve atuação elogiada.

Quase dois anos depois, Silvia apitou uma vitória do São Paulo sobre o Corinthians no Morumbi por 1 a 0. E Tite, que era o treinador corintiano (Leão dirigia o São Paulo), criou uma grande polêmica ao dizer que mulheres não deveriam apitar jogos masculinos. “Não é preconceito. A questão é que, por ter menos força muscular e velocidade, uma mulher não consegue acompanhar a rapidez de um jogo entre homens.”

Silvia ficou revoltada com as declarações de Tite e disse que ele tinha dito aquilo para desviar o foco da derrota de sua equipe. “O que ele falou é um absurdo, corri tanto como qualquer árbitro corre.” O Sindicato dos Árbitros e a Federação Paulista de Futebol saíram em defesa da árbitra, e divulgaram números para comprovar que fisicamente ela não tinha deixado nada a desejar a um homem. Entidades feministas protestaram contra Tite, acusando-o de ser preconceituoso.

Tite foi demitido no dia seguinte jogo porque o iraniano Kia Joorabchian não gostou nada da atuação do time e menos ainda de Coelho – e não Tevez – ter batido um batido no finalzinho do jogo que foi defendido por Rogério Ceni. As críticas do treinador à árbitra também não pegaram bem, e muita gente no clube achou que ele usou aquilo para minimizar a má apresentação da equipe.

Em 2012, numa entrevista ao portal IG, Tite voltou ao assunto. E reafirmou que é contra mulheres apitando jogos masculinos. A íntegra da resposta que deu ao repórter Bruno Winckler é a seguinte: “Você já viu alguma mulher apitar jogos masculinos, jogos de alto nível? Não mais. A exigência física é diferente. Isso não é sexismo, preconceito. Diminuíram as idades dos árbitros em função disso. Árbitros como o Leonardo Gaciba, que virou comentarista, não suportaram a questão física. Isso é só para mostrar o quanto é alto o grau de exigência. É biológico. Sou formado em Educação Física. Uma mulher não tem a mesma capacidade física e aeróbica nem a mesma força de um homem. Acho que em jogos femininos tudo bem, acho que até podem seguir sendo auxiliares em jogos masculinos pela capacidade de concentração, mas pela exigência da arbitragem acho que podem prejudicar as partidas se apitarem jogos masculinos.”

Sorte de Bibiana Steinhaus que Tite não é técnico de um time alemão. Ou sorte dele, porque certamente seria expulso de campo por ela se dissesse que mulheres podem atrapalhar se apitarem jogos entre homens.

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