Cristiane, atacante da Seleção Brasileira, e Priscila – foto: arquivo pessoal

Nas arquibancadas, são assediadas por gracejos invasivos e, ao sair de casa, precisam se preocupar com as roupas que usam, para evitar assédio e o discursinho torpe do ‘se vem assim para o estádio é porque está querendo outras coisas’. Quando resolvem vestir os uniformes, subir o túnel do vestiário e entrar em campo como protagonistas de dribles e gols, ouvem imediatamente que ‘o corpo feminino não foi feito para esse esporte, a leveza da mulher não combina com um jogo forte e viril, são desengonçadas e sem ginga, fica feio, é coisa para machos’. O ambiente profissional da área é não raro também bastante hostil para elas. Já ouvi editor de jornal esportivo dizendo que não contratava repórter mulher para evitar problemas nos vestiários, com os jogadores. “Seduzem. São marias chuteiras”.

No melhor estilo temerário bela, recatada e do lar, o futebol, nos mais distintos espaços e situações, é um universo historicamente marcado pelo machismo e conhecido por excluir as mulheres. Priscila da Costa Martins conhece essas barreiras de muito perto. Desde molecota, briga para implodir estigmas e preconceitos. “Sempre gostei de jogar bola. Cresci ouvindo que não era para mim. Mas sou teimosa e persistente”. Adolescente, e também já envolvida com a luta por direitos das mulheres, decidiu que, assim que a oportunidade se concretizasse – na faculdade, num mestrado –, desenvolveria um trabalho de pesquisa que contribuísse para colocar esse debate em evidência. O resultado dessa persistência e dedicação é o artigo científico “Futebol feminino – Uma história de lutas por reconhecimento social e profissional”, defendido no último dia 23 de junho como Trabalho de Conclusão de Curso na Escola Técnica Estadual (ETEC) de Esportes ‘Curt Walter Otto Baumgart” e disponível no acervo permanente do Centro de Documentação do Museu do Futebol (https://goo.gl/PpCK2o)

Não foi fácil. A primeira versão do texto da pesquisa, iniciada em agosto de 2016, estava salva apenas no celular, furtado num trem. “Perdi tudo”. No final do ano passado, a ETEC decidiu derrubar a modalidade monografia e exigir que os alunos e alunas produzissem artigos. “Era mais curto. Precisei cortar um monte de coisas, fazer adaptações”. As turbulências foram finalmente superadas. Ao combinar revisão de literatura com entrevistas, o trabalho faz uma breve retrospectiva da presença do futebol feminino no mundo e no Brasil, destaca a ainda fortíssima referência masculina e machista que marca o esporte – que naturaliza xingamentos e comportamentos sexistas -, discute a legislação e as diferentes etapas percorridas pelas jogadoras até a tão sonhada profissionalização e reforça o fundamental papel que pode ser cumprido pelos meios de comunicação na garantia de visibilidade para o futebol feminino e na desconstrução de estereótipos e de intolerâncias. Aqui, a autora lamenta e condena a postura ainda excludente que muitas vezes contamina manchetes de jornais e a influência negativa de falas machistas feitas por comentaristas – alguns, inclusive, bastante conhecidos e formadores de opinião. “Destacam a mulher jogadora apenas por sua beleza, pelos atributos físicos. Esses casos só reforçam preconceitos do passado que ainda estão presentes nos dias atuais”, destaca Priscila.

Para ela, um dos principais motores a impulsionar transformações de mentalidades e comportamentos devem ser as escolas, desde a mais tenra idade, nos ensinos infantil e fundamental. Priscila diz que não é mais possível aceitar que, na primeira aula de Educação Física, a sala seja dividida em meninas que vão jogar vôlei e meninos que vão para a quadra de futebol. É uma visão profundamente equivocada, arcaica, anacrônica. Não há qualquer variável ou limitação que impeça a mulher de também arriscar suas tabelinhas e embaixadinhas – ao contrário, os benefícios físicos, cognitivos e emocionais são imensos também para as minas boleiras. “Essa é minha história de vida. Guardo uma mágoa danada de uma professora que não me deixava participar do time nos campeonatos entre classes, contra outras escolas. Eu tinha dez, onze anos. Ela dizia que não poda misturar. Eu ficava enfurecida, não entrava na minha cabeça”. Ela completa: “A gente pensa na ponta final, nas jogadoras profissionais, mas é preciso considerar que esse caminho é longo e difícil. A escola precisa ser esse espaço livre e cidadão de incentivo para as meninas que querem jogar, sem travas ou barreiras”.

A paixão de Priscila pelo futebol nasceu quando ela ainda era uma garotinha, três anos, e já disputava peladas com os amigos na rua, em São Bernardo do Campo, região do ABC paulista. O grande incentivador e inspiração foi o avô dela, de quem fala com muito carinho. “Ele foi goleiro na várzea, me levava para os jogos, para a quadra e me dizia que, se era o que eu gostava, era para ser feliz”. Do avô, herdou ainda o amor pelo Corinthians. Assiste a todos os jogos do time do coração, quartas e domingos, pela TV, pelo rádio ou pela internet. Não perde de vista, claro, as partidas do time feminino. Ainda não conseguiu acompanhar o alvinegro das arquibancadas do estádio. Vilão: o preço dos ingressos. “Não sou sócia torcedora, fica difícil, é caro. A vez em que cheguei mais perto foi num jogo contra o Flamengo, em 2015, no Pacaembu. Conseguimos um ingresso. Mas eu estava com um amigo, não quis deixá-lo de fora. Vai chegar o dia”.

Agora formada e atuando como Monitora de Esportes Radicais, Priscila já tentou a sorte como jogadora de futebol, nas categorias de base do São Bernardo Futebol Clube e também do Botafogo do Rio de Janeiro, entre os 16 e os 17 anos. É só elogios para a estrutura do clube carioca e o apoio que lá recebeu. “Tínhamos alojamento, treinamentos, uniformes, público nos jogos. O que faltava mesmo era mais divulgação da mídia”. Acostumada às peladas de rua e ao aconchego da família, sozinha na cidade grande, ela sentiu o baque e enfrentou muitas dificuldades de adaptação. “Eu era muito nova, era outro mundo. Me senti uma peixinha fora da água. Acabei me contundindo. Não deu certo. Mas é uma experiência que guardo com muito carinho”. No Botafogo, ela foi vítima, mais uma vez, do machismo boleiro. “Era um amistoso contra o Porto Real. Entrei no segundo tempo. Já estava sentindo o incômodo no joelho. Numa bola cruzada na área, dei um carrinho e estiquei a perna, mas não consegui fazer o gol. A contusão piorou. Das arquibancadas, ouvi todo tipo de palavrão sexista, ‘se fosse homem faria’, ‘não é jogo para mulher’. Machismo puro”.

Em dezembro de 2013, no Estádio Baeta Neves (por coincidência, meu avô morou na frente do ”Baetão” e eu, menino, frequentava o estádio), num jogo da Associação Desportiva Centro Olímpico contra o São José, Brasileirão feminino, Priscila pôde realizar um de seus grandes sonhos: conhecer a atacante Cristiane, uma das craques e destaques da Seleção comandada por Marta. “Conversamos um tempão, como se fôssemos amigas de infância”. Ela não esconde a euforia com a campanha do Corinthians no Brasileirão dos marmanjos. Diz que, apesar da larga diferença de pontos na tabela de classificação, ainda tinha dúvidas. Depois da vitória sobre o Palmeiras, crava: “seremos campeões”.

Se o título de fato vier, tomara que ela esteja nas arquibancadas, vibrando e comemorando a conquista.

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