Adoro ser professor. A sala de aula é minha ágora grega, espaço único de expressão da diversidade e da tolerância. Nela, somos movidos pelas dúvidas, pela curiosidade. Mas, como tudo na vida, essa atuação docente convive também com efeitos colaterais gravíssimos – e não falo apenas do cada vez menor reconhecimento social da profissão, das jornadas exaustivas, dos salários aviltados. Aqui, penso em fantasmas que assombram um nicho mais específico da categoria – os educadores diagnosticados como boleiros fissurados por futebol e que não conseguem livrar-se dessa profunda dependência, apesar de todos os esforços e tratamentos já tentados, incluindo terapias freudianas e junguianas, além de remédios tarja preta e que podem ser consumidos apenas com expressa e rigorosa recomendação médica.

Não ter a possibilidade de acompanhar os jogos das rodadas noturnas dos dias de semana, exatamente por estar em classe, é uma das consequências mais dramáticas e angustiantes dessa singela relação profissional. Verdadeiro atentado ao espírito torcedor. A pelota rolando lá, eu falando a respeito de conceitos cá. Se os leitores soubessem as mil e uma peripécias que precisei inventar para tentar escapar dessa armadilha. São merecedoras de um Nobel de criatividade futebolística.

Já procurei adivinhar, imaginem vocês, resultado de jogo do Santos em mata-mata de Libertadores acompanhando os gritos de alunos que assistiam à partida amontoados no bar que dava para a janela da minha sala, enquanto eu dissertava candidamente sobre características do jornalismo científico. Grito alto e festivo… será que foi gol? Estão xingando e resmungando. Alguém expulso? Tudo com cara de paisagem, como se nada estivesse acontecendo para além da pauta-pesquisa-texto-edição. Quando a decisão foi para os pênaltis, os alunos rapidamente identificaram minha expressão lívida, tensa e, solidariamente, sugeriram ‘professor, liga o telão. Está passando o jogo’. A recomendação foi imediatamente aceita. Era tarde da noite e aula já tinha acabado mesmo. Respirei aliviado – mais ainda porque o Santos ganhou e se classificou.

Assim que a tabela das quartas-de-final do Paulistão foi anunciada, comecei a suar frio. A derradeira partida Santos x Ponte Preta havia sido marcada para uma noite gorda de segunda-feira. Chequei o plano de aulas da turma. A programação marcava uma conversa sobre gêneros literários, com foco nos contos, disciplina Leitura Crítica. Compromisso inadiável. Sem saída. Dever profissional dado é dever profissional a ser cumprido. Lá fui eu. Antes, claro, combinei com a filhota Luiza que deixaria o celular discretamente acionado num cantinho da mesa, modo silencioso, para que ela pudesse me narrar o jogo virtualmente, tempo real. Com detalhes, reforcei. Conte tudo. Vá mandando as mensagens. Não vou poder responder, mas darei um jeito de ler todas. Luiza foi o som atômico do meu zapzap, a mãe da matéria daquela peleja noturna.

 

Boa noite, pessoal. Vamos avançar um tanto mais nas conversas sobre gêneros literários tratando hoje dos contos e procurando compreender e sistematizar coletivamente como essas narrativas nos auxiliam a construir leitura crítica de mundo.

Vai começar, pai. O Paca está cheião. Mar branco. Bom jogo.

O conto é filho legítimo de uma habilidade, na verdade uma necessidade humana ancestral e que nos encanta desde que nos reconhecemos como espécie. Falo da oralidade, essa paixão que temos por sentar em torno de uma fogueira ou em rodas de família para ouvir histórias.

Só o Santos está querendo jogar. A Ponte só se defende. Mas não estamos conseguindo chutar no gol.

No conto, tempo e espaço são condensados, concentrados, compactados. O número de personagens é também reduzido, exatamente para que possam ser explorados com profundidade. Quando um conto começa, já precisa sugerir ou encaminhar seu desfecho.

Ricardo Oliveira mandou uma cruzada rasteira que saiu raspando a trave!

Eu? Difícil dizer um só. Gosto muito dos contos do García Márquez, do Cortázar, do Machado, da Alice Munro e do Sergio Sant’Anna, para misturar clássicos e contemporâneos, brasileiros e estrangeiros.

Gol! David Braz! Foi um golaço, de quase bicicleta. E teve um pênalti que o safado do juiz não marcou. O zagueiro da Ponte empurrou o Bruno Henrique dentro da área.

Outra característica, traço marcante dos contos, é o uso recorrente dos diálogos. É um recurso que confere agilidade à história. Pergunta, resposta, réplica, tréplica. Quando falam, os personagens se revelam.

Segundo tempo. A bola só fica com o Santos, mas não resolve, porque só ficam rodando de um lado para outro.

Num conto, tudo é breve, intenso. Como diz Cortázar, o conto vence o leitor por nocaute.

Na trave! Uma cacetada do Zeca na trave! Vai, Santos! O Dorival tirou o pastor! Ficou louco!? E se for para os pênaltis?

Peguem por favor o conto ‘Você vai voltar pra mim’, escrito pelo Bernardo Kucinski.

Acabou o segundo tempo. Vamos bater os pênaltis no gol do tobogã. Boa sorte, pai!

Vamos ler também o conto “O moço e o velho”, da Luisa Geisler.

Kayke. Gol. Ponte fez. David Braz. Errou. Ponte fez. Jean Mota. Gol. Ponte fez. Copete. Gol. Ponte fez. Lucas Lima. Gol. Fez. Perdemos. Não deu. Estamos fora, pai. Fala com o Dani. Ele está bem chateado.

Atordoado, eu quase já não sabia mais se o conto ‘O cobrador’ tinha sido escrito por Lucas Lima ou se aquele gol perdido durante o tempo normal deveria ser colocado na conta do Rubem Fonseca.

Quando a aula acabou e consegui finalmente ligar o celular, piscaram imediatamente três chamadas perdidas. Era o Dani. Tentei consolar o moleque, sem muita convicção. Em casa, invadi a madrugada vendo na íntegra o VT da partida. Foi difícil dormir. Pulei cedinho da cama na terça, ainda amuado, sem ter conseguido processar por completo a derrota. Tinha aula.

Fora das semifinais do Paulista, o Santos pensa apenas na Libertadores. Enfrenta o Independiente Santa Fé na quarta-feira, na Colômbia.

Jogo noturno.

Estarei em sala de aula.