Os médicos tinham sido tão honestos quando taxativos: nada mais havia a fazer. O caso era terminal, questão de tempo, de saber quanto a agora frágil e debilitada máquina comandada pelo cérebro conseguiria resistir. Tinham uma única humana preocupação: garantir ao Velho Boleiro que os últimos instantes de seu campeonato fossem serenos, sem dores ou sofrimentos. Ele merecia.

Consultado, antes de mergulhar no coma, ainda com restinho de consciência e quase que como derradeiro desejo, ele disse: ‘quero morrer em casa’. Tinha horror a hospital, a fios e agulhas, aos cheiros azedos e pútridos de medicamentos e infecções. Para dar conta do pedido, a cama dele fora tirada do quarto e levada ao escritório, uma espécie de quartel-general futebolístico. Pretendia partir rodeado pelas flâmulas de tantos times do mundo e das fotos de jogos inesquecíveis, relíquias e paixões acumuladas ao longo dos quase 90 anos de vida e das quais ele muito se orgulhava.

Mirrado, quase só osso e pele, consumido pela doença, sorrateira e implacável, o Velho Boleiro já não conseguia sequer esboçar mínima conexão com o mundo real. Memórias e lembranças, no entanto, permaneciam vivinhas, em cores e com detalhes talvez ainda mais intensos do que quando tinha de fato vivenciado aqueles episódios. Era como se a natureza desse a ele a chance generosa de se despedir com explosão mágica de afetos e imagens em altíssima definição daquilo – e daquele – que ele reverenciava acima de qualquer suspeita. O melhor de todos, em todos os tempos.

Um filme que só os neurônios dele eram capazes de reprisar. Três chapeletas em sequência e o cumprimento final de cabeça, na rua Javari. Gol de placa no Maracanã, driblando o time inteiro do Fluminense. Desfile de gala no estádio da Luz, em Lisboa, Portugal, contra o Benfica. Infinitos dribles de corpo e tabelinhas com Coutinho. O Velho Boleiro esteve em quase todos os jogos, ao redor do mundo, para, em êxtase, aplaudir e depois contar: ‘eu vi o Rei’.

Sem nem desconfiar daquela sessão de cinema cerebral especial, parentes faziam hora-extra no escritório, rodeando a cama, repetindo a todo instante o sinal da cruz e rezando pai-nosso e ave-maria para que a alma do ente querido fosse recebida no paraíso com pompa e circunstância. Jamais reconheceriam publicamente, claro, mas estavam todos muito mais interessados em saber qual destino seria dado à fortuna polpuda acumulada pelo Velho Boleiro – sem escorregar em negociatas, propinas ou caixas 2. Solteiro, sem herdeiros, tinha preparado um testamento secreto, com a expressa recomendação de que o documento só fosse revelado depois de sua morte.

Primos, sobrinhos, irmãs, irmãos, cunhados, cunhadas e até parentes sobre quem ele jamais havia ouvido falar estavam agora ali, ao pé da cama, revezando-se em orações. Curiosíssimos por conhecer o veredito final. Você desconfia de alguma coisa? Será que ele comentou com alguém? Nenhuma pista mesmo? Vai ser justo e dividir para todo mundo? Por favor, alguém sabe qual é a senha do wi-fi?

Aproveitando-se do fato de o Velho Boleiro já não mais ser capaz de esboçar reações nem de responder, passaram a desfilar rosário de ressentimentos contra a paixão maior do vetusto parente. Veneno puro. Picuinhas cruéis. Ganhou ares de encontro de grêmio estudantil da quinta série B. Vamos combinar, está morrendo, moribundo, sinto muito, mas esse fanatismo sempre foi obsessivo, maníaco. Quanto dinheiro desperdiçado com futebol! E as manias? Insuportáveis. Não pode isso em dia de jogo, precisa fazer tal coisa para dar sorte. Ridículo. Aquela maldita televisão ligada o dia inteiro em mesas-redondas, um martírio. E essas flâmulas bregas e empoeiradas, as fotos velhas penduradas na parede? Para que mesmo? Valem quanto? Será que vai dar para arrecadar alguns trocados com essas velharias?

Sem mais censuras nem freios, agarrando com unhas e dentes a mórbida chance de tripudiar e espezinhar o quase cadáver, ousaram romper a última fronteira de respeito e cruzar o Rubicão desenhado pelo Velho Boleiro. Nunca antes na história do território sagrado daquele escritório futebolístico alguém havia sequer considerado a hipótese de iniciar a resenha sobre quem seria o melhor do mundo. Ele jamais permitira nem dera essa brecha. Para ele, tal debate não tinha fundamento. A resposta era uma só.

Os parentes-serpentes soltaram as línguas, ferinas e raivosas. Messi é gênio, pura arte. Cristiano Ronaldo é artilheiro, muito mais eficiente. Artista é o Neymar, improviso inigualável. Quem faz o Barcelona jogar é o Iniesta. Cacete, ser melhor do mundo não é só fazer gol decisivo em final. O que vale é a temporada. Esses manés todos não chegam aos pés de um Zidane, um Romário, um Zico. Platini. Nem vou falar de Garrincha. Cruyff.

O Velho Boleiro começou a se debater. A convulsão assustou os presentes. Pernas e braços tremiam sem parar. O monitor de batimentos cardíacos disparou. Apito infernal. Correram todos. Chamem os médicos. Ele não está bem. Saiu do coma. Parece que quer falar alguma coisa. Ajudem. Pode ser o testamento! Afofaram três travesseiros e o recostaram neles. Estava quase sentado. Olhos esbugalhados, fulminou todos e cada um dos abutres. Fazia força para abrir a boca. A voz não saía. Até que veio, gutural.

P…. P…. PE… PE… PELÉ!!! PELÉ!!!

O berro ecoou por toda a casa, quiçá pela vizinhança. O escritório foi tomado por um silêncio cabisbaixo e constrangido.

Ele repetiu, na última lufada de ar que conseguiu puxar dos pulmões.

PELÉ!!!

Não teve tempo de contar aos estimados parentes que a bolada transformada em poupanças e títulos de dívidas públicas e moedas estrangeiras e ações da Petrobras e da JBS tinha sido todinha deixada para uma fundação que se dedicava a formar novas gerações de craques da bola, apostando principalmente em jovens carentes. As flâmulas e as fotos – velharia que ninguém queria – também já tinham destino certo. Museu do Futebol.

A cabeça tombou lentamente, sem nervosismo, para o lado direito. Expressão plena de satisfação e sossego. Antes que o monitor cardíaco parasse de vez, o Velho Boleiro buscou com o olhar uma das fotos – eram tantas – do camisa dez saltando e socando o ar, punho cerrado, na comemoração de mais um gol. Piscou. Três vezes. Deixou escapar uma lágrima.

A respiração foi ficando mais curta, pausada, jogo cadenciado, apenas trocando bola no campo de defesa, do zagueiro para o lateral, deste para o volante, recua para o goleiro, de novo para o zagueiro, esperando o tempo passar e o árbitro de outro mundo apitar o final da partida. Segura. Calma. Falta pouco. Assim partem os boleiros.

Subiu a placa. Sem acréscimos. Fechou os olhos. Tinha no rosto um sorriso sereno. Levava para a eternidade a felicidade suprema de quem tinha visto Sua Majestade desfilar em campo.

E aí, vamos ler o testamento?, sugeriu um primo mais afoito, esfregando as mãos.

Alguém achou que tivesse visto o Velho Boleiro soltar mais um sorriso, maroto, de canto de boca. Só impressão.

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